Estamos em abril e o país já arde. Esta frase, que poderia soar alarmista há uns anos, tornou-se uma realidade inquietante e cada vez mais frequente em Portugal. Mal entramos na primavera e já assistimos às primeiras chamas a consumir hectares de floresta, a ameaçar populações e a expor, mais uma vez, fragilidades estruturais que insistimos em não resolver.

Portugal já está a sofrer com os incêndios. E a pergunta impõe-se com urgência: o que virá deste verão? Se o cenário atual é este ainda antes da época considerada crítica, é difícil não antecipar meses particularmente duros. As alterações climáticas, com temperaturas mais elevadas e períodos de seca prolongados, são parte da equação, mas não podem continuar a servir de desculpa para a inação.

Persistimos num erro crónico. Agir como se os incêndios tivessem data marcada para começar. Continua a haver a ideia profundamente enraizada nas políticas e na gestão de recursos de que o problema começa a 15 de maio, com o início do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais. Mas a realidade já desmentiu esse calendário há muito tempo. O fogo não espera por decretos nem por datas administrativas.

Esta abordagem reativa, concentrada em reforçar meios apenas durante os meses de verão, revela uma falta de adaptação a um novo contexto climático e territorial. Em vez de uma estratégia contínua, integrada e preventiva, continuamos a apostar num modelo sazonal que chega tarde e, muitas vezes, já em modo de contenção de danos.

A grande falha continua a ser a prevenção. Ano após ano repetem-se discursos sobre a importância de limpar matas, gerir combustíveis, apoiar proprietários e valorizar o mundo rural, mas a execução fica aquém. Falta investimento consistente, falta fiscalização eficaz e, acima de tudo, falta vontade política para enfrentar um problema estrutural que exige soluções de longo prazo.

Prevenir incêndios não é apenas limpar terrenos antes do verão. É repensar o ordenamento do território, combater o abandono rural, criar mosaicos agrícolas que dificultem a propagação do fogo e garantir equipas no terreno durante todo o ano. É tratar a floresta como um ativo estratégico e não como um problema sazonal.

Enquanto continuarmos a agir apenas quando o fumo já é visível, estaremos sempre um passo atrás. E, infelizmente, esse atraso paga-se caro em hectares ardidos, em prejuízos económicos e, por vezes, em vidas humanas.

Portugal não pode continuar a arder todos os anos como se fosse inevitável. Porque não é. É, em grande parte, o resultado de escolhas ou da falta delas.

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