O Alto Minho está a formar mais de 120 bombeiros. Alguns não aguentam a recruta, que tem cada vez mais mulheres.

As temperaturas noturnas quase negativas que se fazem sentir à hora da instrução na escola de bombeiros no quartel de Ponte de Lima não intimidam os 25 recrutas. Entre os 15 homens e as 10 mulheres há elementos com formação académica. Fazem parte dos 128 elementos da Escola de Recruta que está a decorrer em várias corporações do Alto Minho, contabiliza a Federação dos Bombeiros do Distrito de Viana do Castelo.

Tantos interessados é um “oásis” numa época em que a “crise de voluntariado” chegou às corporações, admite o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses. Segundo António Nunes, o problema sente-se mais nas zonas menos populosas e afastadas do litoral. “Há países em que é uma honra ser bombeiro. Em Portugal nem sempre é assim”, diz António Nunes, que espera ter mais 10 mil voluntários até 2025.

Um ano de aprendizagem

A instrução em Ponte de Lima começou com 30 elementos, mas cinco já desistiram. Solange Pereira, de 23 anos, estudante de Psicologia na UTAD, em Vila Real, resiste. Ao frio, à dureza do treino e também à necessidade de adequar as unhas compridas e pintadas de vermelho à condição de bombeiro. “Já as tenho mais pequenas”, conta ao JN, que assistiu a uma das últimas aulas.

A escola começa com o chefe Emílio Silva a comandar a formatura. “No início de cada instrução eles praticam passos. Temos formaturas para receber personalidades”, justifica o formador. Segue-se o módulo de incêndios urbanos e industriais. O exercício exige flexibilidade e ligeireza, apesar dos pesados equipamentos de proteção.

A formação é de 400 horas, entre teoria e prática, mais um estágio em cada uma das áreas de aprendizagem, o que faz com que, para ser bombeiro voluntário, seja necessário praticamente um ano. “A recruta é dura, por isso há muitas vezes desistências. É preciso estar preparado física e psicologicamente para chegar ao final, mas depois saem preparados para o mundo real”, considera Emílio.

De acordo com o comandante da corporação de Ponte de Lima, Carlos Lima, ali não tem faltado recrutas graças “ao trabalho de antecipação feito todo o ano nas escolas, onde se procura jovens para ingressar nos bombeiros”.

Destaca o aumento da procura das mulheres e elementos com formação académica superior. “Temos um que está a acabar Medicina, muitos das engenharias, de Direito. Por trás de uma farda, nunca se sabe quem lá está”, comenta.

No caso de Luís Duarte, de 40 anos, recruta em Ponte de Lima, está um alpinista industrial. “Trabalho em acesso por cordas e nessa área faço um pouco de tudo, manutenção de edifícios e pontes, montagem de eventos. De certa forma já sou um bocado bombeiro”.

Liga espera mais 10 mil voluntários até 2025

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, António Nunes, estabelece como objetivo para os próximos quatro anos aumentar em 10 mil o número de voluntários em todo o país. Considera importante este reforço, numa altura em que cerca de 30 mil bombeiros (número da Autoridade Nacional de Proteção Civil) suprem, em regime de voluntariado, as necessidades nas 465 corporações nacionais. “Queríamos crescer para 40 mil em quatro anos. Para isso precisamos de trabalhar em campanhas de informação e em melhorar o estatuto de incentivo ao voluntariado, para ajudar a captar jovens que queiram vir para os bombeiros”, afirma António Nunes.

Fonte: Jornal de Noticias